Dokic e Lucic, as ex-prodígios, com histórias de pais abusivos e que continuam lutando na WTA. Dokic já está entre as top 100 de novo.

As atenções do tênis mundial estão voltadas nesta semana para o Masters 1000 de Toronto, a Rogers Cup, com o retorno de Nadal, Federer e Djokovic às quadras, depois de um mês de descanso do tour.

Mas, já faz tempo que quero escrever sobre a Mirjana Lucic e Jelena Dokic. E hoje, ao passar os olhos sobre o ranking da WTA e ver o de Dokic no 82º posto, resolvi aproveitar para falar sobre a croata e a sérvia.

Quando as vi pela primeira vez no circuito, há mais de 10 anos, elas eram do leste europeu, eram jovens e pareciam prontas para dominar o mundo do tênis. Com estilo de jogo agressivo e cabelos loiros colorindo as quadras do mundo, elas eram a sensação na WTA.

Mas, diferente das histórias de outras meninas prodígio da época, como Martina Hingis, Anna Kournikova e Serena Williams, Dokic e Lucic viajavam com pais um pouco diferentes dos já diferentes pais de tenistas.

Sim, Martina ganhou o nome da mãe Melanie, em homenagem a Navratilova. Queria fazer da filha uma campeã no tênis. As irmãs Williams fizeram o sonho do pai se tornar realidade e Kournikova viajava todos os torneios com a mãe. Mas, nenhum deles, pelo menos que se saiba, bateu na filha, abusou sexualmente, foi preso, expulso de algum torneio, passou dos limites com imprensa  e com as próprias meninas.

No caso de Lucic, semifinalista de Wimbledon em 1999 e de Dokic, semifinalista no ano 2000, isso aconteceu.

Lucic, um ano mais velha do que Dokic, não chegou ao quarto posto do ranking mundial como a hoje australiana Dokic. Seu auge foi o 32º lugar em 1998, ano em que precisou fugir de seu país, a Croácia, para se livrar dos abusos do pai, que batia na adolescente, após cada jogo que ela perdia.

Número um do mundo juvenil, campeã junior do US e do Australian Open, Lucic também era obrigada a se pesar diariamente na frente do pai. Caso estivesse acima do peso, apanhava. A mãe também sofria com os abusos do marido, que segundo a própria Mirjana batia nas crianças desde que elas eram pequenas.  A família chegou a se esconder na casa de Goran Ivanisevic, em Split, até conseguir asilo político, primeiro na Suíça e depois fixar residência nos Estados Unidos.

Com toda essa confusão mental na vida da então adolescente Mirjana, a carreira no tênis foi desmoronando aos poucos. Ela saiu do top 100 no ano 2000, sumiu dos rankings entre 2004 e 2007, engordou mais de 20 quilos e  agora, aos 28 anos, está chegando perto de um lugar entre as 100 mais bem colocadas do ranking mundial novamente.

Depois de perder todos os contratos, processar a IMG (International Management Group), ficar sem dinheiro para poder competir, está no circuito de novo e tendo que disputar os qualifyings de todos os torneios em que já brilhou.  Desde 2003 sem jogar um Grand Slam, passou o quali de Wimbledon e jogou a chave principal neste ano. Espera conseguir fazer o mesmo em New York .

Já Dokic tem uma história até mais complicada do que a de Lucic, por já ter sido top 5 e ter um pai que chegou a ser preso e foi acusado de abusar ainda mais fisicamente da filha. “Ninguém sofreu mais do que eu,” revelou Dokic em uma entrevista à revista Sport & Style, da Austrália, no ano passado.

Foi em 2009 que ela viveu um novo momento de conto de fadas ao alcançar as quartas-de-final do Australian Open, jogando novamente pela bandeira da Austrália e depois de ter disputado apenas um torneio do Grand Slam nos quatro anos anteriores.

Viu seu ranking subir, seu pai ser preso, viveu momentos de celebridade novamente. Assinou contratos com a Lacoste, JetStar, ganhou wild cards para vários torneios, mas seu corpo não estava tão pronto assim para aguentar a forte rotina do circuito mundial e logo os resultados pararam e vieram as lesões.

Pensei, sinceramente, que Dokic pararia por alí. Cheguei a vê-la na estreia em Roland Garros, mas ela foi facilmente superada pela checa Lucie Safarova. Ela parecia estar entrando naquela rotina de lesões e derrotas que depois de tantos infortúnios passados, tanta luta fora da quadra, acabam levando o atleta a desistir do esporte.


Mas, não foi o que aconteceu. Ela se separou do namorado e treinador Borna Bikic, e contratou o ex-técnico de Ana Ivanovic e Dinara Safina, Glen Schaap, ganhou três torneios seguidos da categoria Challenger, todos com premiação de US$ 75 mil (Bucareste, Contrexeville e Vancouver) e já está na 82ª posição no ranking mundial.

Para jogar o US Open ela provavelmente – se não ganhar um wild card – terá que passar pelo qualifying, mas não está preocupada. Ela afirma estar se preparando para a temporada 2011.

Que coragem e vontade destas meninas – elas ainda tem cara de menininhas, apesar de possuírem um olhar muitas vezes triste – de vencerem novamente. É admirável.

Para quem quiser ler uma história mais detalhada de Dokic, reproduzo a seguir uma material bem completa que escrevi – alias, adorei escrever – sobre ela, na edição 95 da Tennis View.

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