Kimiko 39, versão 2010

Opera e Kimiko versão 2010

Mais um dia de sol em Paris. Acordo cedo e resolvo passear um pouco pela cidade. Fã da Pinacoteca de São Paulo, vou conhecer a parisiense e aproveitar par aver a exposição inédita de Edward Munch, o “anti-grito.”

A exposição é abrangente, passa por todas as fases da vida do artista norueguês. Quando termina é hora de ir a Roland Garros. Pego o metrô em frente a Opera de Paris. Apesar de já ter visto tantas vezes este símbolo da capital francesa, não me canso de admirar. A cada ano parece mais bela.

Opera de Paris

Opera de Paris

Quando chego em Roland Garros Dinara Safina está entrando em quadra para enfrentar a japonesa Kimiko Date Krumm.  Vice-campeã do torneio nos últimos dois anos, Safina é favorita e deve vencer o jogo facilmente.

Ao olhar na arquibancada vejo um rosto conhecido. Gaston Etlis, ex-técnico de Guillermo Cañas, com quem me encontro depois e me conta que há dois dias começou a trabalhar com a tenista russa.

Pena para o argentino.

Kimiko Date Krumm, 39 anos, 15 a mais do que Safina e 63 posições abaixo no ranking (Safina é a 9ª e Date Krumm a 72ª) vira o jogo e depois de estar perdendo por 4/1 no terceiro set, vence a partida por 3/6 6/4 7/5 e quase tendo que desistir do jogo com fortes dores na panturrilha.

A história da japonesa sempre me interessou.  Campeã precoce, número quatro do mundo em 1995, semifinalista de Roland Garros naquele mesmo ano, e que em 1996 resolve abandonar as quadras. Doze ano depois, em 2008, retorna ao circuito, ganha um torneio WTA em 2009 e agora derrota a vice-campeã de Roland Garros dos últimos dois anos. Ao vê-la lutar, chorar de emoção e comemorar a vitória com um beijo no marido alemão, Michael Krumm, resolvo conhecer um pouco mais sobre Kimiko.

Vou a sua entrevista coletiva e me surpreendo ao olhar de perto para ela. Não parece uma senhora de 39 anos. Dócil, sem deixar transparecer que os anos passaram, tem a pele lisa e um sorriso quase ingênuo. Não fala inglês com facilidade, mas nem por isso deixa de se expressar. Tenta, de todos os modos, explicar como, doze anos depois de ter deixado o circuito, volta e para ganhar.

A razão de tudo, segundo ela, é o marido. Eles se conheceram em 1998, em Le Mans. É para ele que ela olha quando perguntam se foi para ter momentos como este que ela voltou a competir. “Não, foi por causa dele,” diz sem titubear.

Ela explica que Michael, piloto de corridas, sempre quis vê-la jogar e que depois de treinar para jogar uma exibição, em 2007, com Steffi Graf e Martina Navratilova e treinar duro para não fazer feio, ele insiste que ela deveria tentar voltar a jogar.  Em conversa com Michael, depois, ele me conta que foi muito duro este início, que a esposa pegava a raquete para treinar e perdia para meninas que estavam no colegial e vê-la menos de três anos depois ganhar de Safina é incrível. “Ela é uma lutadora.”

Logo no início do retorno, Kimiko tem alguns resultados bons em torneios Futures no Japão, sem pensar nos Grand Slams. Um ano depois já pode jogar os qualifyings dos maiores torneios e decide voltar para o grande circuito.

Ela treina duro, se prepara e aos 39 anos vence Safina e está na segunda rodada de Roland Garros.

“Não gosto muito de saibro, mas mesmo assim venci a Safina hoje. Terei mais uma grande lembrança desta quadra Suzanne Lenglen onde, em 95 ganhei da Iva Majoli par air a semifinal e depois perdi da Arantxa Sanchez-Vicario.”

As perguntas não param. E todos querem saber o que Kimiko fez durante todo esse tempo em que não competiu. Ela conta que curtiu a vida. Ficou uns dois anos sem pegar na raquete. Praticou outros esportes, correu maratona – a de Londres -, virou comentarista de televisão, tentou ter um filho mas não conseguiu, construiu uma escola no Laos com Michael e voltou a jogar tênis.

Terminada a coletiva um amigo me convida para um bate-papo solo com a japonesa. Curiosa vou junto e acabo entrevistando-a também.

Kimiko Date Krumm

Kimiko Date Krumm

Pergunto pra ela quais as principais mudanças que ela sente e Kimiko afirma que agora curte muito mais o tênis. “Antes eu era muito jovem. Viajava e só comia em restaurante japonês. Perdia um jogo na primeira rodada e já queria voltar pro Japão. Não gostava de viajar. Agora estou curtindo tudo. Estou mais madura.”

Daquela época, Kimiko conta que mantém contato constante com Steffi Graf, conterrânea do marido, com as espanholas Sanchez-Vicario e Conchita Martinez e com Lindsay Davenport. “Todas acham que sou louca e ficam admiradas também.”

O tênis diz ela, mudou bastante. “Tem muito mais força, bem menos jogadoras japonesas e preciso usar ainda mais a cabeça.”

Sobre a idade, a única coisa que atrapalha é o físico. “Já não tenho mais 20 anos e o meu corpo demora para se recuperar se alguma coisa acontece e também não posso exagerar na hora de fazer os exercícios, se não passo do ponto. É a busca do equlíbrio.”

E é este equilíbro que ela precisa encontrar nas próximas horas para se recuperar a tempo de enfrentar a australiana Jamila Groth.

11 Comments

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11 Responses to Kimiko 39, versão 2010

  1. Debora

    Nao conhecia Kimico , adorei a entrevista.

  2. Fê Papa

    Maturidade da Kimiko,
    maturidade na cobertura de RG.
    Bela reportagem, Gabanyi!!!
    A história é fantástica, faz lembrar o retorno do Andre, as tentativas da Selles depois do ataque, Capriati e alguns mais… Aquela turminha que a gente via jogar e depois se empolgava mais ainda para entrevistar! Parabéns, Di, what a day na Lenglen hein?? Com fran-da-padoca e tudo mais!!! 🙂 Amazing.

  3. Andre Galhardo

    Muito bom.
    Seria uma boa vc ter uma conta no tuiter para mini-posts em 140 caracteres… E lembretes de novos posts aqui. 😉
    abs

    Btw, eu tenho 39 e tb ganho de quem tem 15 anos a menos hehe

  4. Gabriel

    Nao conhecia teu blog,foi uma grata surpresa,entao.
    Mas a Kimiko eu ja conhecia de outras temporadas.Quando comecei a acompanhar o tenis com mais frequencia,la nos idos de 1995/96,eu era fa enlouquecido da Steffi Graf e do Pete Sampras.Comprava a Gazeta Esportiva todos os dias para ler as noticias sobre eles e ver o ranking atualizado semanalmente.Me intrigava ver na quarta ou quinta posicao aquele nome japones,Kimiko Date.Aos poucos fui conhecendo melhor o jogo e a determinacao daquela baixinha.Durou pouco.Ela se aposentou precocemente.Minha paixao pela Graf perdurou e eu chorei junto com ela naquele Roland Garros 99.Viagem no tempo.2008.Sou um fa enlouquecido da Elena Dementieva,Svetlana Kuznetsova e,acima de todos,Rafael Nadal.Ja nao existe mais Gazeta Esportiva e eu leio o que quero pela internet.Leio que Kimiko Date (agora Krumm) voltara as competicoes.Como assim?Kimiko de volta?Depois de mais de 1 decada?Impossivel.Mas eu nao me dei por vencido e consegui encontrar por ai videos de alguns jogos espalhados por japao e outros lugares na Asia,alem de torneios sobre a grama na europa.Era ela mesmo!!Um corpaco de maratonista,bracos torneados.Ela se divertia,era claro!E era bonito de se ver.Numa entrevista disse que,aos 39 anos,seus planos eram menos ambiciosos e eram renovados a cada torneio,dia a dia.Era isso que eu via na quadra quando ela enfrentava Dinara,14 anos apos sua ultima participacao em RG.Safina era a propria imagem do sofrimento,da dor.Kimiko estava em outra.Voltou para curtir.E o que eh o esporte senao isso?Eu assistia incredulo a exibicao da japonesa.Eu,que sou fa do Touro espanhol,ganhei meu dia com a veterana japonesa, essa grande Kimiko Date Krumm.

  5. Alexandre Scarpato

    Excelente post Diana. Muito bem escrito e conciso como tem que ser na internet.

    Continue assim..e quero ler mais histórias sonbre a Kimiko hein? Nao perca ela de vista!

    Grande abraço

  6. Bela história, belo post.

    Muito bacana o seu blog, Diana. Estarei sempre por aqui de olho.

    abraços,
    Frederico Wanis.

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  8. Pingback: Parabéns Kimiko Date Krumm! Aos 40 anos na final em Osaka e não é torneio Senior.

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