Roddick, transformado, entra na 2ª semana de Wimbledon em busca do troféu de campeão

Se existe no circuito um tenista que se transformou, como pessoa, e para melhor, ao longo da sua carreira, o nome dele é Andy Roddick.

De fenômeno juvenil, successor da geração de Courier, Agassi e Sampras, típico american boy, por vezes arrogante, Roddick foi crescendo, como ele mesmo gosta de dizer, diante dos olhos do mundo.

Foi treinado por Brad Gilbert, ganhou o US Open, chegou ao topo do ranking mundial, viveu o inferno ao aprovar uma campanha da American Express, toda feita em cima dele durante um US Open em que acabou perdendo na primeira rodada, namorou a atriz Mandy Moore, escolheu Jimmy Connors para ser seu treinador, levou os Estados Unidos a ganhar a Taça Davis, perdeu inúmeras vezes seguidas para Roger Federer (incluindo a final do ano passado em que perdeu por 16/14 no 5º set), tentou carreira solo, viajou com Patrick McEnroe e depois contratou Larry Stefanki. Casou com a modelo, capa da Sports Illustrated, Brooklin Decker, se tornou bom moço, ajudando em causas sociais, como a do “Champions for Chile,” no começo do ano, em Miami, na noite anterior a jogar a final que viria a vencer, levou pizza para John Isner, no meio da maratona do jogo mais longo da história do tênis e em meio a tudo isso decidiu três finais de Wimbledon e quer enfim levar para casa o troféu de campeão.

Roddick na final do ano passado contra Federer

Já nas oitavas-de-final, em que enfrentará, na segunda-feira – sim, segunda-feira, ninguém joga em Wimbledon no domingo, a grama precisa descansar – Yen-Hsun Lu, do Taipei, Roddick, apesar da derrota prematura no torneio de Queen’s (foi eliminado nas oitavas-de-final pelo israelense Dudi Sela), segue em busca do seu sonho: conquistar Wimbledon.

Reproduzo aqui a entrevista que Tennis View – www.tennisview.com.br – publicou na última edição, a 105, com Roddick, para que todos possam conhecê-lo um pouco mais.

Nota – A entrevista foi feita após a vitória do Americano no Sony Ericsson Open, no meio da temporada de saibro. Mas, ele já estava de olho na grama.

Roddick Declara Seu Amor Por Wimbledon

Tennis View – O que significou ganhar o Sony Ericsson Open, em Miami, para você?

Andy Roddick – Foi uma grande vitória para mim. Tive umas semanas muito boas e vencer um torneio como esses, o maior depois dos Grand Slams, foi fantástico. Eu tinha sido vice em Indian Wells umas semanas antes e estava sentindo um pouco de pressão para ganhar em Miami. Me dá muita motivação para o resto da temporada.

TV – O torneio de Miami foi um dos primeiros grandes que você jogou. Ganhou um convite aos 17 anos de idade, já ganhou do Sampras, Federer… Você tem uma conexão especial com o evento?
AR – Tenho muitas memórias daqui, até mesmo antes de jogar profissional. Joguei o Orange Bowl, a Sunshine Cup, a Copa Davis juvenil, tudo nesse estádio. Foi onde eu senti pela primeira vez o que era representar o tênis nos Estados Unidos. Já joguei tantas vezes aqui que me sinto em casa e super à vontade em quadra, com a torcida e com as condições de Miami.

TV – Há uns quatro anos você não ganhava um torneio tão importante. Isso te incomodava?

AR – Acho que todo atleta tem dúvidas. Eu cheguei a pensar que talvez o meu melhor já tivesse ficado para trás, mas no fundo eu sabia que ainda podia encontrar maneiras de continuar evoluindo e dar tudo de mim para ter sucesso.

TV – Você é superfã de esportes. Você aprende muito com outros esportistas?

AR – Sou sempre muito grato por ser um esportista e respeito de mais todos os atletas. Sempre fico pensando quando assisto um outro esporte o que o atleta teve que fazer, como treinou, como se preparou. Todo mundo acaba vendo só os resultados e acham que o atleta vai lá joga e ganha, mas tem um milhão de manhãs geladas em que você levanta cedo e está lá correndo, treinando. Fico fascinado com os esportistas e tudo o que eles fazem.

TV – Se você não fosse tenista, que outro esporte gostaria de jogar?

AR – Ser um quarterback – futebol Americano – seria divertido. Você tem que ser muito inteligente para ser um quarterback, muito esporte. É uma das posições mais difíceis.

TV – O seu maior adversário dos últimos anos é o Federer. Você chega a pensar que se não fosse por ele poderia ter ganhado muito mais troféus?

AR – Penso, mas não fico obcecado com isso. Ouço toda hora as pessoas dizerem quantas vezes ele já ganhou de mim, mas o que eu vou fazer. Eu entro em quadra e dou o meu melhor. Sou comparado ao melhor jogador de todos os tempos, que respeita e faz muito pelo esporte. Um cara que faz golpes dificílimos parecerem rotineiros.

TV – Foi difícil digerir a derrota na final de Wimbledon do ano passado?

AR – Foi muito, mas ao mesmo tempo, tenho muitas memórias boas daquele jogo. O tênis virou assunto em todos os lugares por umas duas ou três semanas e isso é incrível. Foi difícil não ter vencido, mas me trouxe muitas coisas boas.

Acho que perder para o Murray, em Wimbledon em 2006, foi mais duro, o período mais negro da minha carreira.

Eu não vinha jogando bem o ano todo, mas lá no fundo eu sabia que sempre tinha Wimbledon, onde eu costumo jogar bem constantemente. Mas perdi para o Murray que tinha 18, 19 anos na época. Foi duro me reerguer.

TV – Você sempre disse que tinha quatro objetivos na sua carreira: ganhar o US Open, ser número um do mundo, vencer a Davis e Wimbledon, o único que falta.

AR – Se você me falasse quando eu me tornei profissional aos 17 anos que eu teria essa carreira, eu teria pego na hora. Mas, obviamente quando você vai conquistando as coisas você vai mudando os seus objetivos. Eu quero muito ganhar Wimbledon e sinto que estou pronto. Signficaria muito para mim.

TV – Você gosta de toda aquela pompa, tradição..

AR – Eu amo, de coração. Todas aquelas pequenas tradições e sem meio termo. Você ama ou odeia. Eu adoro ficar na Vila de Wimbledon, andar pela vizinhança, ver rostos familiars quando você está indo para as quadras …

TV – E a Quadra Central, ela também é especial para você?

AR – É A QUADRA. Ela tem uma magia, uma aura, é a nossa Catedral, a Meca do tênis.  Wimbledon é tradição e não precisa de todo o show que os outros torneio promovem porque já é uma entidade.

TV – Você quer ganhar Wimbledon, mas já ganhou muito até agora. Qual momento foi mais especial?
AR – Não sei dizer, mas gostei muito da reação das pessoas depois da final de Wimbledon do ano passado. Acho que pela primeira vez as pessoas puderam me ver como realmente sou. Eu perdi o jogo mas todos apreciaram o esforço, o jogo e você não tem essas respostas sempre.

TV – Se você tivesse a oportunidade de escolher um sonho para realizar na sua carreira, qual seria?

AR – Se eu ganhasse Wimbledon, teria tudo que eu sempre quis.

TV – Você mudou um pouco o seu jogo, como o Larry Stefanky influenciou?

AR – Quando começamos a trabalhar acho que ele estava meio preocupado porque eu já tinha sido número um, sou um cara respeitado no circuito e ele afirmou que para trabalhar ele teria que comandar. Era isso que eu queria. Alguém que me guiasse novamente. Admiro a inteligência dele no tênis, a energia e a personalidade dele.

TV – Algo específico que você melhorou?
AR – Perdi um pouco de peso, incorporei slices e a minha esquerda em geral melhorou com certeza. Nunca vai ser o meu melhor golpe, mas eu não erro mais e consigo ser eficiente. A devolução também melhorou e isso me dá ainda mais segurança na hora de sacar.

TV – Você ainda fica chateado quando as pessoas dizem que a sua melhor arma é o saque e a sua raça?

AR – Eu sempre ouço as pessoas dizerem: olha que linda a esquerda desse cara, o voleio daquele, etc, e escuto que eu não consigo fazer nada, mas no fim, acabo ganhando de quase todo mundo, consistentemente.

TV – Falando em golpes, quem tem a melhor direita do circuito?

AR – O Roger. Ele controla o jogo com a direita no meio da quadra e bate bem de todas as maneiras, de dentro para fora, angulada, com ritmo…

TV – E uma esquerda?

AR – A do Rafa. Ninguém nunca fala dela, porque gostam de falar das belas esquerdas de uma mão. A esquerda do Rafa é sólida e muito pesada. Ele consegue variar demais a maneira como usa o golpe. A do Murray também é muito boa.

TV – Qual é o jogador mais forte mentalmente no circuito?

AR – Sempre penso no Hewitt. O Rafa nunca te dá nada de graça, mas sou fã do David Ferrer. Você olha para ele e não diz, isso é puro-talento. Adoro como ele consegue vencer jogos dando duro. Ele luta até o fim, trabalha muito e conseguiu se tornar um grande jogador de tênis.

TV – Que jogadores que fizeram a história do tênis você mais admira?

AR – O Arthur Ashe, que transcendeu o esporte, o Agassi por ter feito tanto pelo tênis e se tornado um líder filantropista e a Billie Jean King pela sua luta pela igualdade. Eles são heróis.  Conseguiram pegar tudo o que fizeram como esportistas e transformar em algo maior do que eles mesmos. São exemplos. Eu mesmo comecei a minha fundação por causa do Agassi. Fiquei muito chateado pela maneira como as pessoas o trataram quando ele lançou o livro. Ele é o cara que mais fez pelo tênis nas últimas décadas e de repente todo mundo virou as costas para ele.

TV – Depois de tantos anos sendo o principal nomes do tênis dos Estados Unidos, você ainda sente pressão dos americanos que parecem sempre estar em busca do Agassi e do Sampras?

AR – Acho que desde que eu tenho uns 17 anos eu escuto isso. Estou acostumado e lido bem com pressão e expectativas. Isso significa que as pessoas acreditam em mim.

TV – Você vê novos nomes surgindo no tênis americano?

AR – Gosto muito do Ryan Harrison, de 17 anos. Ele gosta de treinar, tem talento, escuta, presta atenção no que está acontecendo. Já treinei com ele várias vezes em Austin. Ele nunca reclama, aproveita as oportunidades, tem uma cabeça boa e tem todos os golpes que podem evoluir muito.

TV – A sua mulher, a Brooklyn Decker apareceu na capa da SwimSuit Issue da Sports Illustrated. Isso te incomoda?

AR – Tem sido uma loucura desde então, mas eu gosto de acompanhar o que acontece com ela. Tenho orgulho do sucesso dela, uma trabalhadora que nunca se afetou com o mundo da moda. Desde que a revista saiu, ela não parou, é como se ela tivesse vencido Wimbledon. Temos que conciliar nossas agendas. Então, quando tenho que parar, por algum motivo, por alguns dias, até fico empolgado pela chance de estar com ela.

TV – O pessoal fica mexendo muito com você no circuito?
AR – Surpreendentemente, não. Eles mais dizem” não é possível que você está com ela,” ou “ como é ser o mais feio no relacionamento?”

TV – Você cresceu em Austin, uma cidade pequena, e continua morando lá, com a Brooklyn. Nunca pensou em viver em outro lugar?

AR – Gosto de morar em Austin porque é um lugar em que as pessoas não são afetadas. Tem muitas pessoas conhecidas e empresários que moram em Austin e levam uma vida tranquila. Não quero falar sobre tênis cada vez que entro em um lugar para tomar um café e lá eu consigo fazer isso.

TV – Você acha que mudou muito nos últimos anos?
AR – Todo mundo muda e eu fui mudando na frente de todos, mas acho que dentro de mim não sou muito diferente do que era. Sou apenas um cara mais caseiro e que gosta ainda mais do tênis do que antes.

TV – Você está no circuito profissional há 10 anos e desde 2002 sempre esteve entre os top 10. A que você credita esse sucesso?
AR – Eu não tive lesões sérias em todos estes anos. Acho que o maior tempo que eu fiquei fora da quadra foi quando machuquei o tornozelo, no fim do ano passado e foram três meses. Também soube me adaptar às mudanças no circuito, sempre trabalho duro e tive um pouco de sorte.

TV – Você já está esperando jogar Wimbledon de novo?
AR – Tenho jogado bem até agora nesta temporada. Fui o melhor jogador nos torneios de quadra rápida do começo do ano. Estou otimista.

Colaborou a Lagardére Unlimited

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